O caos dentro do golpe*


Aracaju, 02 de junho de 2018

 

O Brasil se afunda na sua subserviência ao capital nacional e internacional, entregando o nosso patrimônio produtivo e ambiental, abdicando da exploração do pré-sal, ameaçando vender por preços irrisórios a Eletrobras e suas subsidiárias e também a privatização das águas brasileiras.

 

A paralisação dos caminhoneiros é resultado da política equivocada da gestão da Petrobras que atende à lógica geral do golpismo, visando garantir o rendimento aos acionistas da empresa, em detrimento das necessidades do nosso povo.

 

O preço abusivo do diesel foi o estopim desse movimento que desnudou o golpismo, mostrando toda a fragilidade e ilegitimidade desse Governo que já não se sustenta nas suas bases e que não tem conseguido dar respostas àqueles que bancaram o golpe de 2016.

 

A paralisação, segundo os organizadores, ocorreu em 22 estados o no Distrito Federal, com cerca de 300 mil caminhoneiros, gerando, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o sacrifício de mais de 60 milhões de aves, paralisando 220 mil trabalhadores e a perda de 100 mil toneladas de carne de aves e de suínos que deixaram de ser exportadas, com um impacto de 350 milhões de dólares na balança comercial. No geral, segundo projeções do setor, os prejuízos já somam mais de R$ 3 bilhões, desde o início da paralisação.

 

Os ruralistas, mentores do golpe contra a democracia, pressionados pela base, fazem um discurso confuso defendendo a política de lucro da Petrobras, mas lamentando os prejuízos que estão tendo em seus negócios, com as perdas que acumulam. Mas a origem dessa crise está na adoção do receituário neoliberal num setor de alto interesse para o país. Para atender aos interesses norte-americanos, a Petrobras cortou em 30% a produção das refinarias nacionais, criando uma situação favorável à importação em larga escala de combustíveis oferecidos pelas petrolíferas estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos, fazendo os preços dispararem.

 

O problema que acontece com o preço do diesel também se verifica na gasolina, no álcool e no gás de cozinha, cujos reflexos atingem todo o povo, com a redução do seu poder de compra. Cada vez mais se deixa de cozinhar com gás e se apela para o uso de álcool, o que tem provocado inúmeros acidentes domésticos, com queimaduras graves, como se verifica no Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE).

 

Para a Federação Única dos Petroleiros (FUP), a atual política de reajuste dos derivados de petróleo, que fez os preços dos combustíveis dispararem, é “reflexo direto do maior desmonte da história da Petrobras”, que com o golpe viu o número de importadoras de derivados quadruplicarem e promoverem a adoção preços internacionais, onerando o consumidor brasileiro. Segundo dados da FUP, em 2017, o Brasil foi inundado com mais de 200 milhões de barris de combustíveis importados, enquanto as refinarias, por deliberação do governo Temer, estão operando com menos de 70% de sua capacidade. Esta gestão entreguista está obrigando a Petrobras a abrir mão do mercado nacional de derivados para as importadoras, que hoje são responsáveis por um quarto de todos os combustíveis comercializados no país e, com isso, sofrem os caminhoneiros, mas sofre também todo o povo brasileiro.

 

Estamos vivendo um apagão dos combustíveis, a exemplo do que foi o apagão elétrico de FHC, com uma política de preços que inviabiliza o consumo de bens básicos para toda a população, que ainda poderá pagar com impostos todo o rendimento transferido aos acionistas daquela empresa.

 

A atual deflagração da greve dos petroleiros tem como reivindicações a redução dos preços do gás de cozinha e dos combustíveis, contra a privatização da empresa e pela saída imediata do presidente Pedro Parente, que, junto com Michel Temer, mergulhou o país numa crise sem precedentes. A Petrobras está seguindo uma política perigosa com foco na produção e venda de óleo bruto, como já foi demonstrado pelo seu presidente, na Câmara, na audiência em que tratou do fechamento das Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (Fafens).

 

Sergipe é um dos grandes prejudicados com esta política, porque está sendo fechada uma das fábricas mais importantes para a economia do estado. Ainda nesta quarta-feira, em telefonema com representantes da FUP, estamos articulando uma reunião para a próxima semana para tratar dessa questão, porque as informações que temos é que a Petrobras não deu nenhum andamento para a permanência das Fafens em funcionamento, nem debateu o projeto para isso. Ao contrário, está transferindo funcionários.

 

Para não ficar refém dos preços internacionais, a solução não pode ser a dos golpistas, de aumentar impostos para o povo e de reduzir a carga tributária das empresas transportadoras. A Petrobras precisa voltar a ocupar lugar de destaque no refino e na distribuição de derivados e reestabelecer preços internos capazes de atender às necessidades da população.

 

Um país que tem tudo para se tornar autossuficiente em termos de petróleo e seus derivados, com a produção do pré-sal batendo o recorde de 1 milhão e 700 mil barris por dia, conforme informação da Agência Nacional do Petróleo (ANP) em abril, abre mão dessa riqueza em favor das empresas estrangeiras que estão se apoderando dos blocos de exploração.

 

Precisamos dar um basta nesta onda de entreguismo e de privatizações e para isso necessita de uma grande mobilização nacional, com a FUP, os demais sindicatos e todas as entidades, de forma a promover uma discussão nacional de retomada da democracia e da nossa soberania.

 

*João Daniel – Deputado federal – PT/SE