Depois de 17 anos famílias conquistam posse de terra da antiga Tinguí


Aracaju, 04 de dezembro de 2014

Depois de 17 anos famílias conquistam posse de terra da antiga Tinguí

Sem nem conseguir descrever a emoção, dona Iraci dos Santos Reis viu passar um filme pela sua cabeça ao receber das mãos do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e do presidente nacional do Incra, Carlos Guedes, o documento de posse do imóvel Fazenda Tinguí, agora Assentamento Marcelo Déda. Para ela, naquela fração de minuto, veio à sua mente todos os anos, desde a primeira ocupação da área, os conflitos, as lutas dos companheiros para que, finalmente, tivessem a tranquilidade de ter seu pedaço de chão para plantar e assim ter de onde tirar o sustento de sua família. “Estou muito feliz, não tenho nem palavras. Foram muitas lutas, me lembro de cada momento, a aflição de todos nós, os que não chegaram até aqui para ver esse momento. É uma história de vida, de muito sofrimento, mas que agora é de tanta alegria”, declarou, bastante emocionada.

 

A felicidade de dona Iraci era o sentimento de cada uma das 250 famílias agora integrantes do Assentamento Marcelo Déda e também dos demais presentes ao ato de imissão de posse da Fazenda Tinguí, que aconteceu na manhã desta quinta-feira, dia 4, pessoas que de alguma forma acompanharam esses anos de luta. Nesse momento histórico para os trabalhadores rurais de Sergipe estiveram presentes o ministro do Desenvolvimento Agrário, o presidente do Incra, além do superintendente do Instituto em Sergipe, Leonardo Góes, os deputados estaduais João Daniel, Ana Lúcia e Conceição Vieira (todos do PT), o presidente da Emdagro, Jeferson Feitosa, representando o governador Jackson Barreto; os prefeitos de Malhador, Elaine de Araújo, de Itaporanga, Maria Das Graças, de Poço Redondo, Roberto Araújo; secretários de Estado e representantes de empresas estaduais e federais, dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a viúva do governador Marcelo Déda, Eliane Aquino, entre outros.

Há 17 anos as famílias acampadas na Tinguí aguardavam esse momento. Nessas quase duas décadas, viveram momentos de luta, conflitos, enfrentamentos e incertezas. “Esse momento marca 17 anos de luta e resistência. Muitas famílias que chegaram aqui viram seus filhos crescerem, esses já constituíram suas famílias e todos permanecem aqui. É um momento em que lembramos de muitos companheiros que já se foram. Para o MST nacional, a Tinguí é o primeiro caso de adjudicação, o que abre uma nova porta para a reforma agrária no país e em Sergipe”, disse a dirigente nacional do MST em Sergipe, Gislene Reis.

 

O deputado estadual e federal eleito João Daniel (PT) acompanhou de perto a história das famílias na Fazenda Tinguí e considera que esse é um momento de grande conquista. Para ele, talvez a maior em termos de representação para o MST e os lutadores da reforma agrária em Sergipe. “Aqui vivem famílias que dedicaram 17 anos de luta, mas valeu muito a pena. Estou muito feliz. Para todos nós é uma grande conquista que vai trazer desenvolvimento econômico social para toda essa região, especialmente para os municípios de Malhador, Santa Rosa de Lima e Riachuelo, além de trazer dignidade às 250 famílias e, com certeza, fazer com que os que ainda não conquistaram suas terras acreditem e continuem lutando para que um dia tenhamos uma grande reforma agrária em Sergipe e no Brasil”, disse, ao lembrar a justa homenagem feita pelo MST ao governador Marcelo Déda com a escolha do seu nome para o assentamento.

 

José Roberto Alves da Silva, sergipano hoje fazendo parte da direção nacional do MST por Alagoas, conhece bem a história da Fazenda Tinguí, pois esteve participando do início da ocupação, tendo sido inclusive preso em um dos conflitos. Para ele, a conquista da posse dessa terra é a reafirmação uma grande luta que o MST na fazenda há mais de 20 anos e fruto da insistência, persistência e determinação. “Só graças à luta, à organização dos trabalhadores foi possível chegar a essa vitória definitiva. A solidariedade de todos os movimentos populares do campo e da cidade e a sensibilidade de alguns órgãos públicos convencendo e fazendo a luta no dia a dia foram fundamentais para essa conquista”, frisou.

Conquista

O ministro do MDA, Miguel Rossetto, ressaltou a importância dessa imissão de posse, depois de 17 anos de luta, de trabalho, de conflitos judiciais, de negociações intensas. “Agora estamos comemorando a conquista de uma terra em definitivo para a reforma agrária. Encerramos esse momento da forma correta e definitivamente esses quase 2 mil hectares passam a formar um assentamento da reforma agrária a partir do trabalho do Incra”. Disse.

 

De acordo com o ministro, a imissão de posse da Tinguí também é um momento emblemático porque inaugura um novo movimento do governo federal. “São áreas de devedores da União. Nós estamos inaugurando um outro movimento, um novo instrumento importante de fazer com que áreas patrimônio de devedores da União, áreas paradas, sem produção, possam ser transferidas para a reforma agrária e possam se transformar em áreas produtivas, produzindo alimentos para o nosso povo, trabalho e qualidade de vida”, disse.

 

O presidente do Incra, Carlos Guedes, destacou ainda a importância da assistência técnica a essas famílias assentadas, para que elas possam produzir ainda mais nos lotes onde vivem. Na oportunidade, foi entregue o cronograma de implementação de políticas públicas no Assentamento Marcelo Déda para os próximos três anos. Segundo ele, é determinação da presidenta Dilma Rousseff a estruturação e fortalecimento das áreas de reforma agrária no país.

 

Homenagem

A viúva de Marcelo Déda, Eliane Aquino, agradeceu a homenagem ao governador e lembrou da luta dele pelos trabalhadores rurais e sem terra. “Independentemente de ele ter se tornado político, ele começou a vida dele lutando por essas pessoas. Então não tem reconhecimento melhor. Espero que essa terra seja fruto de todas as melhores intenções dele, que dê muita prosperidade a essas famílias. O nome de Marcelo Déda nesse lugar é mais um que vai fazer com que a memória dele sempre viva para essa e as próximas gerações”, disse.

Por Edjane Oliveira, da Assessoria de Imprensa

Foto: Ronaldo Sales